Resiliência “fenixiana” – Habilidade fundamental para um mundo em constantes mudanças

Todos nós, sem exceção, passamos, durante o nosso viver, por situações imprevisíveis e inevitáveis, com altos e baixos, momentos esplendorosos de felicidade que se alternam como momentos de medo e de dor.

Nosso bem-estar não abrange unicamente as coisas boas, mas também situações que podem nos levar a desenvolver distúrbios mentais como ansiedade e depressão.

Imagine algumas situações pelas quais passamos, como a morte de um ente querido, a perda do emprego dos sonhos, o fim de um relacionamento, ser vítima de um crime ou de uma catástrofe, entre tantas situações ruins e adversas.

Estes, e tantas outras situações, podem fazer com que qualquer pessoa se afunde em si mesma até chegar “ao fundo do poço”.

Para mais, a sociedade como um todo (pais, amigos, parentes, professores) nos ensina que acontecimentos ruins como o erro, a falha ou o fracasso também são coisas horríveis. Mas ninguém nos ensina como aprender com eles e vislumbrar novos caminhos para nos tornarmos melhores, se as coisas vierem a se repetir.

Frente a qualquer situação deste tipo, o ser humano vai reagir de acordo com seu modelo mental predominante. As reações, boas ou ruins, dependem de como a mente interpreta o evento ou a situação. E isto é algo individual.

Uma determinada situação ou evento pode atingir violentamente alguém enquanto o mesmo evento pode não causar nenhum tipo de prejuízo para outra pessoa. Além disso, o que para uns representa um risco ou ameaça em uma fase da sua vida, pode não se-lo em outra época.

O mais importante é saber que é a nossa reação ao evento que faz toda a diferença.

A vivência de algo negativo é uma excelente oportunidade para que aprendamos a reagir de forma diferente e mais serena caso tenhamos que enfrentar o mesmo evento.

Esta capacidade humana recebe o nome de resiliência.

A palavra RESILIÊNCIA deriva do latim RESILIO que significa voltar ao estado natural, ao estado original.

A Física nos ensina que resiliência é a propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo deformado é devolvida quando cessa a tensão ou pressão causadora de tal deformação, ou seja, a capacidade de um corpo voltar ao seu estado normal após a remoção do agente que causou tal deformação.

Dois exemplos: um elástico que, quando esticado, volta ao estado anterior após a remoção da força tensional ou uma bexiga inflada que adquire várias formas quando comprimida e que volta ao estado anterior após a remoção da força que cause tal deformação.

A ideia da resiliência pode ser aplicada a diferentes áreas da ciência. Mas para a Psicologia, ela significa a capacidade que o ser humano possui em saber lidar e superar situações adversas e difíceis sem prejuízo da sua saúde física e mental.

Quem é resiliente consegue se recuperar com mais facilidade ao enfrentar cada desafio, seja na sua vida pessoal, familiar ou profissional. Pessoas resilientes possuem maior desenvolvimento pessoal e outro nível de consciência. Por isso estão constantemente desenvolvendo uma “reconfiguração interna” de suas próprias percepções e atitudes quando diante de situações adversas ou traumáticas.

É sobre esta “reconfiguração interna” que quero comentar.

Fênix e o renascer das próprias cinzas

            Existe uma lenda antiga que menciona a existência de uma ave mitológica conhecida por Fênix. Esta ave possuía extraordinários poderes: uma vez morta, ela renascia das próprias cinzas; suas lágrimas tinham capacidade curativa; e, era tão forte que podia carregar até elefantes.

Para os povos antigos, esta ave possui vários significados.

Ela pode representar o triunfo da vida sobre a morte, o eterno recomeço, a esperança, a perpetuação da vida, a ressurreição, símbolo da felicidade, da virtude, da força, da liberdade, da inteligência, da renovação, da imortalidade e do renascimento.

Ela também representa a superação pelo fato de renascer das próprias cinzas. Este fato também simboliza o sol que, ao término do dia, morre para renascer na manhã seguinte.

A fênix também é considerada uma alegoria da purificação, da mudança do velho para o novo. Assim considerado, todas as vezes que alguma coisa acontece e que nos abate e nos faz cair, tenhamos uma atitude que nos faça levantar e seguir em frente, como se fossemos uma fênix.

Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, em seu livro Símbolos da transformação, traça um paralelo entre o ser humano e a ave mitológica ao afirmar que a fênix representa o poder da resiliência, isto é, a capacidade inigualável de, ao reagir e vencer situações adversas, nos transformamos em seres mais corajosos, fortes e iluminados.

Felizmente, temos este poder de nos transformar após passarmos por momentos ruins e traumáticos e, se não o exercitarmos, estaremos limitados à uma autodestruição.

Resiliência fenixiana (*)

            Estabelecidos estes dois paralelos, fica mais fácil entender que a resiliência, por si só, não é tudo.

Não basta “voltarmos ao estado natural” quando cessa o evento adverso, mas devemos voltar “ao estado natural” mais fortes e mais inteligentes. Daí a associação com a fênix.

Existem pessoas tão resilientes que, mesmo em situações adversas, as consideram como oportunidades de crescimento pessoal e de melhoria de sua qualidade de vida. Isto não significa que nunca passarão por momentos ruins e desfavoráveis, mas que são possuidores de uma série de habilidades mentais que os ajudam a lidar com situações ruins e estressantes.

Todos nós possuímos, em maior ou menor grau, este poder. Desenvolve-lo e aumenta-lo durante a vida vai depender, principalmente, do nosso autoconhecimento.

Para isso, Claudia Riecken recomenda:

– mantenha-se em contato com seus recursos internos;

– reconheça e aceite que existem problemas e que soluções são necessárias;

– tenha flexibilidade e jogo de cintura;

– reconheça suas fraquezas, seus erros e também o seu valor;

– fale abertamente com alguém em que você confia sobre seu problema ou sua dor. Uma outra opinião ou outra forma de observar o problema pode ajudar  a resolve-lo;

– formule um plano de superação e divida-o em etapas;

– desenvolva sua criatividade;

– enfrente, supere, restaure-se e prospere.

E o que caracteriza as pessoas resilientes e fenixianas?

Para Frederic Flach tais pessoas resilientes possuem:

– capacidade de aprender;

– autorrespeito;

– criatividade na solução de problemas;

– habilidade em recuperar a autoestima quando diminuída ou temporariamente perdida;

– independência de espírito, autonomia;

– liberdade e interdependência;

– habilidade de fazer e manter amigos;

– disposição para sonhar;

– bom senso de humor;

– grande variedade de interesses.

Já para Eduardo Carmello são resilientes as pessoas que possuem uma combinação das seguintes qualidades:

– são autoconfiantes: acreditam em si mesmos e naquilo que são capazes de fazer.

– gostam e aceitam mudanças: encaram as situações de estresse e adversidade como desafios a serem superados. Sempre.

– têm baixa ansiedade e alta extroversão: são abertos a novas experiências e formas de fazer as coisas. Nunca desanimam.

– têm autoconhecimento e autoestima positivos: conseguem administrar seus sentimentos e suas emoções em ambientes imprevisíveis e emergenciais.

– são emocionalmente inteligentes: conhecem suas emoções, sabem administrá-las, conseguem se automotivar, reconhecem emoções em outras pessoas e sabem manejar relacionamentos.

– são altamente criativos: procuram constantemente por inovações. Não se conformam com a monotonia. Quem se conforma?

– dispõem de uma eficaz capacidade de resposta: mantêm altos níveis de clareza, concentração, calma e orientação frente a uma situação adversa.

Diante das adversidades, problemas e situações ruins, está em nossas mãos a escolha entre “renascer das próprias cinzas” e triunfar ou colapsar e ficar “encarcerado dentro de uma bolha”.

Dois ensinamentos para ter sempre em mente:

– o problema não é o problema. O problema é nossa reação frente ao problema; e,

– o ser que consegue se levantar é muito mais forte do que aquele que nunca caiu.

 

(*) O adjetivo fenixiano (a) não existe formalmente na língua portuguesa. Sua sugestão me foi dada por Anna Paula Leite, professora de português, a qual agradeço pela sugestão.

 

Autor: Luiz Roberto Fava

 

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