Razões para se trabalhar

Quando você ouve a pergunta: “por que você trabalha?”, talvez a maioria dos indivíduos responda:

Para ter dinheiro, pois preciso sobreviver e pagar as minhas contas.

Se esta frase lhe é peculiar, vale lembrar o que Dostoiévski escreveu a respeito: o castigo mais terrível para qualquer Ser Humano seria a condenação a uma vida inteira de trabalho absolutamente desprovido de utilidade e sentido.

Para este autor, uma das metáforas que mais ilustra a frase acima é o mito de Sísifo.

Em poucas palavras, na mitologia grega, Sísifo era um pastor de ovelhas e que presenciou Zeus, o deus do Olimpo, raptar uma mulher. E por isso o denunciou.

Como o senhor do Olimpo sentiu-se afrontado, ordenou a Hermes que desse a Sísifo um castigo que durasse por toda a eternidade. Assim, Sísifo foi condenado a rolar uma pedra morro acima. Mas, toda vez que isso acontecia, e em função do esforço dispendido, a pedra rolava morro abaixo. E a tarefa tinha que ser reiniciada.

Mais modernamente, no século XX, Albert Camus lançou um movimento denominado “a revolta metafísica”, onde explicou que a vida dos homens seria como o mito de Sísifo, isto é, viver uma rotina cotidiana desprovida de sentido.

Para muitos indivíduos que trabalham, de operários braçais a altos executivos, esta parece ser a realidade absoluta: trabalhar de forma repetitiva, monótona, algo visto como de forma inútil e sem recompensas, que não leva a nada e que os condena ao fracasso.

Entretanto, vale lembrar as palavras do psicólogo Martin Seligman, que alerta: à medida que enriquecemos e acumulamos mais posses materiais, nossas expectativas aumentam; por isso trabalhamos ainda mais para ganhar dinheiro a fim de comprar mais bens de consumo e aumentar nosso bem-estar. Mas em seguida nossas expectativas aumentam de novo e o processo não tem fim.”

Mas, no meu entender, trabalhar, ter uma atividade ou profissão, tem muitas outras razões do que simplesmente trocar seu tempo por um salário que lhe garanta a sua sobrevivência mensal.

Todo trabalho possui outros motivos que levam o Homem a continuar fazendo algo, mesmo após sua aposentadoria.

Aliás, em pleno século XXI, é muito comum vermos pessoas que seguem trabalhando mesmo após completarem 60, 70 anos ou até mais. Pelo fato de estarmos vivendo mais tempo, os Seres Humanos tem a possibilidade de continuarem produtivos por períodos de tempo mais longos.

E que outras razões o Ser Humano poderia ter para trabalhar, além de apenas receber um salário para sobreviver?

Porque “eu tenho que”

Quem pensa desta maneira encara o trabalho como algo obrigatório, que não se deve evitar. Geralmente são indivíduos desmotivados, hostis e ressentidos em seus relacionamentos e que vivem da mesma maneira durante toda a sua vida profissional.

Para melhorar e/ou elevar seu padrão de vida.

Além do dinheiro que garanta sua sobrevivência, uma outra razão, ainda relacionada ao dinheiro, na base do “quanto mais dinheiro, melhor”, seria melhorar o padrão de vida pela aquisição de mais bens, como comprar um segundo carro, uma casa na praia ou na montanha; enfim, adquirir bens de consumo para aumentar seu bem-estar e o de sua família.

Em suma: existem indivíduos que trabalham para buscar uma maior posse de bens e riquezas materiais.

Porque não tem nada para fazer

Existem indivíduos que trabalham apenas para preencher seu tempo ocioso.

“Já que meus pais e meus amigos trabalham, eu também vou arrumar alguma coisa para fazer”. E acabam se sentindo obrigados a fazer algo.

Para estas pessoas o trabalho não tem sentido, não tem propósito, não tem significado.

Lembro que quando cursava o curso de Odontologia, entre meus colegas, jovens, cheios de ânimo para terminar os estudos e ter uma profissão, havia um em especial que dizia:

– Estou louco para matar quem inventou o trabalho.

Não preciso nem dizer que ele não se deu bem na vida.

Pessoas que já se aposentaram também procuram seguir trabalhando para não se sentirem inúteis e seguirem ocupadas realizando algum tipo de atividade laboral.

Porque tem medo

Existem indivíduos que trabalham porque vivem assustados com a possibilidade de não terem um trabalho, principalmente em tempos de crise ou recessão econômicas. São pessoas que preferem ficar onde estão, mesmo que não apreciem o que fazem.

Para ter segurança

E esta segurança se traduz em ter estabilidade no trabalho, sentir-se seguro que não será demitido na semana vindoura, segurança no que diz respeito à prevenção de acidentes no ambiente do trabalho e ter segurança com relação à remuneração, não apenas a aumentos de salários e promoções, mas também a programas de benefícios oferecidos, bônus, participação nos lucros, etc.

Além disso, o fator segurança também está associado em se obter uma segurança financeira para enfrentar épocas de crise ou para quando a aposentadoria chegar.

Para aparecer e “se achar”

Existem pessoas que são extremamente vaidosas, que cultuam sua própria imagem acreditando que o trabalho seja o meio para isso.

São pessoas que tem uma necessidade enorme em ser o centro das atenções, pessoas famosas e reconhecidas que acreditam ser melhores do que realmente são.

            Síndrome do holofote ou síndrome do ego inflado são nomes que caracterizam o comportamento destes profissionais.

Uma das suas características é a identificação com o cargo que ocupam. Em vez de apresentarem como Fulano de Tal, apresentam-se como Diretor Financeiro da Empresa Tal, por exemplo.

Curiosamente este fato aconteceu comigo ao ser apresentado a um executivo em um evento. Ao escutar isso, perguntei-lhe:

– Você tem um nome?

Não preciso perder meu tempo em descrever sua expressão de estupefação com minha pergunta.

Outras características que atingem profissionais que apresentam esta síndrome são:

– acham que tem sempre razão;

– excesso de confiança em si mesmos;

– dificilmente aceitam ideias dos outros, o que dificulta as relações interpessoais;

– sentem-se superiores aos demais, o que os tornam arrogantes;

– são os “donos da verdade”;

– tem necessidade de dominar as pessoas;

– tem dificuldade de trabalhar em equipe;

– para ele, os outros são sempre seres inferiores;

– não possuem inteligência emocional.

Para esquecer seus problemas

Outros indivíduos “se matam” de trabalhar para não pensar nos seus problemas e fazem do trabalho uma fuga para suas questões de foro íntimo.

Particularmente conheço pessoas que trabalham até tarde fora de casa para ter menos tempo de conviver com problemas conjugais e/ou familiares.

Para crescer e se desenvolver profissionalmente

A busca do crescimento e do desenvolvimento profissionais fazem parte das mudanças e transformações que estão constantemente acontecendo no mundo do trabalho.

Até o século passado, a maior parte do trabalho consistia em realizar tarefas monótonas e repetitivas à exaustão. Os tempos modernos exigem trabalhos criativos e inovadores em função da concorrência globalizada.

Portanto, o crescimento e o desenvolvimento profissionais são, sem dúvida, duas excelentes razões para:

– aumentar nossos conhecimentos;

– contribuir para a melhoria da profissão de cada um;

– tornar-se um especialista em uma área específica; e,

– ter o domínio pessoal e buscar a excelência naquilo que faz.

Para conquistar e aprimorar as relações interpessoais

Todo Ser Humano necessita viver em contato ou em associação com outras pessoas. Isto lhe dá a oportunidade de conquistar novas amizades, manter boas relações com amigos, familiares e colegas de trabalho: neste caso, independentemente do cargo ocupado.

Participar de um grupo, clube ou comunidade permite ao Ser Humano desenvolver o sentimento de pertencimento. E isto pode ser uma excelente razão para você trabalhar.

Caso você não se relacione bem com seus colegas de trabalho, seus gestores ou com o ambiente onde está inserido, ou não se sinta bem com nada disso, seria bom você procurar algo ou algum lugar novo para trabalhar.

Para ser reconhecido

Se você trabalha, bate metas, atinge objetivos e produz resultados, nada mais justo do que ser reconhecido e respeitado pela sua competência.

De todos os fatores motivacionais no trabalho, provavelmente o reconhecimento é um dos mais importantes, senão o mais importante.

Por isso, é de fundamental importância que as empresas olhem com muita atenção para este componente motivacional. Quando o colaborador tem reconhecido o seu esforço e o seu desempenho, a empresa estará adotando uma política que a fará crescer e ser reconhecida.

Muitas são as formas de se reconhecer o trabalho de um funcionário. Algumas incluem recompensas como aumento de salário, promoção, viagens, prêmios, bônus, etc.

Entretanto, pare, pense e reflita. Quanto vale:

– uma palavra;

– um gesto;

– uma postura;

– um olhar;

– um simples tapinha nas costas;

– um bilhete de agradecimento;

– um endosso verbal da sua atuação para os membros da equipe;

– enviar um e-mail ou um memorando aos escalões superiores, com cópia para o colaborador elogiando-o pelo resultado alcançado;

– ser convidado para uma reunião com a diretoria ou um encontro informal com o presidente da empresa.

Dependendo da ocasião, pode até ser que uma recompensa não financeira acabe tendo muito mais valor para o colaborador.

O reconhecimento pelos outros é essencial para sabermos que estamos trilhando o caminho certo.

Mas o que é mais importante: ser reconhecido é uma oportunidade única de transformar vidas tendo em vista aquilo que você entrega.

Pelo prazer de realizar algo e se sentir útil

Quando você dispende suas energias para atender necessidades sabendo que conseguirá isso, tenho a certeza que isto vai gerar uma satisfação íntima enorme.

No mundo corporativo, isto é uma situação que deixa o indivíduo mais “senhor de si” por ter contribuído com algo importante para o desenvolvimento do negócio ou da empresa.

Sentir-se útil naquilo que fazemos aumenta nossa autoestima e faz com que nos sintamos mais valorizados e mais saudáveis física, mental e espiritualmente;

E isto não se traduz apenas na área do trabalho, mas em todas as outras áreas da nossa vida.

Pelos desafios que o trabalho proporciona

Todo trabalho apresenta aspectos fáceis de serem realizados e aspectos mais difíceis, que exigem mais tempo, mais conhecimento e mais paciência para serem resolvidos.

Existem pessoas que adoram ter um desafio pela frente, pois isso as faz expandir sua consciência para resolvê-los, seja através da pesquisa, da leitura ou da busca de novos conhecimentos para chegar à solução desejada.

Para que isso ocorra, algum tipo de mudança é exigida. E isto pode ser algo difícil porque vai exigir do indivíduo muito esforço para sair ou expandir sua “zona de conforto” para algo mais consistente.

Em seu livro The Stress of Life, Hans Selye assim se expressou: a vida é, em grande parte, um processo de adaptação às circunstâncias. Uma troca eterna é feita entre a matéria viva e o ambiente inanimado, entre um ser vivo e outro, desde o surgimento da vida nos oceanos pré-históricos. O segredo da saúde e da felicidade está no ajuste harmonioso às condições sempre instáveis neste planeta. As penalidades para quem fracassa neste grande processo de adaptação são a doença e a infelicidade.

Muitas vezes, os desafios a serem vencidos e os problemas a serem resolvidos causarão nos indivíduos necessidades que os farão atingir novos patamares de suas consciências. De uma forma ou de outra, terão que se transformar para buscar as soluções exigidas.

Caso você, ou alguém que você conheça, resista a alguma mudança, que continua fazendo as mesmas coisas com resultados previsíveis, que ficam presas ao passado e fazendo sonhos para o futuro e se esquecendo do momento presente, Ryan, em seu livro O poder da adaptação – Como sobreviver a mudanças inesperadas,  assim descreve as dez maiores armadilhas que impedem a transformação destes indivíduos:

– ficar preso à negação;

– ficar paralisado por medo e/ou vergonha;

– desperdiçar muito tempo e energia com culpa e/ou arrependimento;

– acreditar que não há nada que se possa fazer;

– concentrar-se no problema, e não na solução;

– usar apenas soluções que funcionaram no passado para resolver problemas atuais;

– duvidar de todas as alternativas;

– não usar aquilo que lhe dá um sentido e um objetivo na vida, incluindo o trabalho;

– seguir sozinho; e,

– resistir ou recusar-se a aprender coisas novas porque isso exige um esforço adicional.

Quem trabalha para vencer desafios certamente já venceu estas dez armadilhas que fazem com que os indivíduos permaneçam no mesmo patamar.

E isto mostra que todos nós temos a capacidade de usar as nossas energias de três maneiras, como sugere Rhonda Byrne  em seu livro O Segredo:

– dinamicamente, para criar o momento propício para agir;

– receptivamente, para perceber o que está disponível ao nosso redor e dentro de nós; e,

– magneticamente, para atrair as coisas que desejamos (no nosso caso, soluções ainda não encontradas) quando nos concentramos nelas com persistência.

Vencer desafios significa superar nossas limitações. E isto é uma forma de autorrealização.

Para deixar um legado

Legado é tudo aquilo que você deixa para os outros. É tudo aquilo que você realiza e que o fará ser lembrado, não importando o tipo de trabalho que você realiza.

O legado é a contribuição que deixamos quando usamos nossos esforços e nossas energias para justificar todo o nosso empenho e a nossa dedicação nas nossas ações.

E a História está repleta de exemplos, de pessoas que trabalharam nas mais diferentes áreas e que as fazem ser sempre lembradas, como Gandhi, Madre Teresa de Calcutá, Nelson Mandela, Pelé, Silvio Santos, Papa João Paulo II, apenas para citar alguns.

Todas elas tiveram momentos bons e ruins em suas vidas. Mas nunca desistiram e, através de suas ações e atitudes, contribuíram para a melhoria, não só de suas vidas, mas também para a de muitos outros Seres Humanos.

Se você trabalha para deixar um legado, você trabalha pelo senso de realização de algo útil e importante e que terá impacto direto na vida de todos.

Deixar um legado faz você realizar trabalhos que tenham seu valor pela sua realização em si, e não para a obtenção de qualquer recompensa, seja ela financeira ou material. Estas recompensas serão a recompensa natural e não o fim em si mesmo.

Deixar um legado é, sem dúvida, dar sua contribuição para a melhoria dos indivíduos e da sociedade como um todo.

Kretly denomina tais indivíduos como figuras de transição, as quais são dotadas das seguintes características:

– substituem hábitos, procedimentos e sistemas nocivos ou estagnantes por outros mais úteis, eficazes e benéficos;

– conduzem processos de transição que resultam em mudanças positivas e duradouras, assimiladas pelas demais;

– são proativos; recusam-se a cair no comodismo ou na inação;

– sempre mantem-se fiéis a valores baseados em princípios;

– servem de exemplo positivo e, por isso, conquistam a confiança e exercem influência sobre os outros;

– quando cometem erros, procuram aprender com eles e corrigir sua rota;

– são perseverantes sem serem obcecadas;

– sabem ouvir e valorizar os que as cercam;

– provocam respostas positivas e estimulam a cooperação dos demais;

– tem consciência de que são agentes de transformação e não “salvadores”;

– possuem visão, criatividade e iniciativa, mas também sabem priorizar, planejar e organizarem-se para que tudo de frutos;

– não deixam que seus sucessos lhes subam à cabeça, nem que seus fracassos os impeçam de prosseguir;

– transferem conhecimento e estão sempre abertos ao aprendizado;

– não reagem automaticamente, mas escolhem as respostas que darão aos estímulos que recebem.

Entretanto, Nascimento relata que também existem outras razões, como:

– a desobrigação, onde o indivíduo trabalha para ficar livre de algo ou alguém;

– o medo, para escapar de algum tipo de ‘sofrimento”;

– a hipocrisia, para causar uma impressão diferente da realidade; e,

– o aproveitamento, onde se busca uma vantagem pessoal como resultado de uma ação que prejudique outros indivíduos.

A verdade, quer se queira ou não, é que há dentro de cada Ser Humano o desejo de deixar um legado, uma prova de que tivemos uma presença naquele espaço de tempo denominado Vida.

Devemos saber aproveitá-la visto que a mãe Natureza nos fornece o necessário para deixarmos a nossa marca, o nosso legado.

E isso reflete diretamente na evolução da espécie humana. Como afirma McNally: o ponto em que a civilização se encontra hoje em dia é a culminância de numerosos atos criativos realizados por indivíduos que usaram sua inteligência para melhorar a qualidade da existência humana.

 

 

 

Um comentário em “Razões para se trabalhar

  • 4 de agosto de 2019 em 12:55
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    Parabéns Tio, muito precisa as informações do artigo. 👏

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